Financeirização e digitalização da agricultura em debate: Professor do LERU apresenta pesquisas no CPDA/UFRRJ
O professor Cristiano Desconsi, vinculado ao Laboratório de Estudos Rurais (LERU) e ao Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), coordena, no âmbito do laboratório, o projeto de pesquisa “Interfaces entre processos de financeirização e digitalização na agricultura: análise sobre inovações no financiamento privado às commodities agrícolas no Brasil”, no qual investiga as transformações recentes nos mecanismos de financiamento do setor agropecuário. Neste contexto, o professor foi convidado a participar do Ateliê de Pesquisa Transformação digital, Estado e Agricultura no Brasil: escolhas metodológicas e caminhos de pesquisa, realizado nos dias 19 e 20 de março de 2026, no CPDA/UFRRJ, no Rio de Janeiro.
Durante o evento, o docente realizou duas apresentações, articuladas em torno da análise dos processos contemporâneos de digitalização e financeirização da agricultura no Brasil. No primeiro dia (19/03), apresentou o trabalho intitulado “Ecossistemas de inovação: rotas da financeirização da agricultura digital no Brasil”, no qual discutiu a constituição de ecossistemas de inovação como configurações sociotécnicas que orientam trajetórias específicas de digitalização no meio rural. A exposição destacou a centralidade dos processos de financeirização — entendidos como a crescente predominância de lógicas financeiras na geração de valor — e sua articulação com modelos de negócios baseados em startups, plataformas digitais e capital de risco .
A partir de evidências empíricas e análise conceitual, o professor problematizou os limites desses ecossistemas, especialmente no que se refere à sua capacidade de responder às demandas de atores com menor inserção nos mercados dominantes, como agricultores familiares e sistemas produtivos não orientados por commodities. Argumentou, nesse sentido, que as rotas de digitalização tendem a favorecer modelos agrícolas predominantes, reforçando assimetrias já existentes nos sistemas agroalimentares.
No segundo dia (20/03), apresentou a pesquisa “Fintechs no crédito para a agricultura”, na qual analisa as transformações na oferta de serviços financeiros no meio rural a partir da emergência de fintechs especializadas em crédito agrícola. O estudo evidencia como a digitalização reconfigura os mecanismos de concessão de crédito, incorporando novos atores, dispositivos tecnológicos e formas de análise de risco baseadas em dados e plataformas digitais, em contraste com os modelos tradicionais do Sistema Nacional de Crédito Rural.
A pesquisa também destaca a articulação entre fintechs, fundos de investimento e plataformas de gestão e rastreabilidade, evidenciando a formação de redes sociotécnicas complexas que sustentam a expansão dessas modalidades de financiamento. Entre os principais achados, ressalta-se a predominância de operações de curto prazo, voltadas às cadeias de commodities, bem como a flexibilização regulatória que tem permitido a ampliação da atuação dessas organizações no mercado financeiro rural.
A participação do professor no ateliê reforça a inserção do LERU em debates contemporâneos sobre transformação digital, financeirização e ação pública no meio rural, contribuindo para o avanço de agendas de pesquisa que articulam sociologia econômica, estudos sociais da tecnologia e desenvolvimento rural.




