Oficina de culinária africana promove troca de saberes e celebra culturas da Guiné-Bissau e do Haiti na UFSC

30/09/2026 16:26

O Laboratório de Estudos Rurais (LERU), do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), realizou, no dia 25 de setembro, a Oficina de Culinária Africana | Especial Guiné-Bissau e Haiti. A atividade ocorreu das 13h às 17h, na Usina da CAL/CCA/UFSC, como parte das ações do Projeto de Extensão Ubuntu: Africanidades, identidades, costumes, culturas e práticas alimentares.

Mais do que ensinar receitas, a oficina foi proposta como um espaço de encontro, troca de saberes e internacionalização dentro da própria universidade, aproximando estudantes e comunidade acadêmica de diferentes culturas, histórias e práticas alimentares.

A realização da atividade teve um significado ainda mais especial para os estudantes guineenses por ocorrer na semana em que a Guiné-Bissau celebrou 53 anos de sua independência, comemorada em 24 de setembro. Compartilhar o Sigá e outros elementos da cultura guineense nesse período festivo tornou a oficina também uma oportunidade de celebrar o país, manter vivas memórias e tradições e compartilhar com a comunidade universitária parte de sua história e identidade.

A oficina partiu de uma compreensão ampliada da internacionalização. Para além de intercâmbios e da mobilidade de estudantes para outros países, a internacionalização também acontece quando diferentes pessoas, culturas, histórias e conhecimentos se encontram dentro da própria universidade.

Nesse sentido, o Ubuntu constitui uma experiência de internacionalização em casa, na qual os estudantes africanos ocupam lugar central na construção das atividades e no compartilhamento de seus conhecimentos. Como destacado na abertura da oficina, a proposta não era simplesmente aprender receitas, mas aprender com os estudantes, reconhecendo suas experiências, memórias e práticas como parte da diversidade de saberes que a universidade deve valorizar.

Um dos princípios que orientaram a atividade foi a compreensão de que o conhecimento não circula em uma única direção. O Projeto Ubuntu foi apresentado como uma iniciativa construída pelos próprios estudantes e compartilhada com a UFSC.

“Nós ensinamos, vocês ensinam; nós compartilhamos, vocês compartilham. E, nesse encontro, todos nós aprendemos”, destacou a professora Daniela Aparecida Pacífico, supervisora do LERU e coordenadora do Projeto Ubuntu, em sua fala de abertura da atividade. Essa perspectiva expressa um dos sentidos do Ubuntu: a compreensão de que as pessoas se constituem nas relações com os outros e de que o conhecimento também é produzido e compartilhado coletivamente.

A abertura da atividade também trouxe reflexões sobre a importância de compreender a alimentação para além do preparo e do consumo dos alimentos, considerando as relações sociais, econômicas e territoriais envolvidas em sua produção. Como destacou o professor Valmir Luiz Stropasolas, durante sua fala na abertura da oficina, “compreender sobre a origem dos alimentos, sobre quem produz e como produz é parte constituinte de qualquer discussão sobre alimentação”. Essa perspectiva amplia o olhar sobre a comida, conectando as práticas culinárias às pessoas que produzem os alimentos, aos seus modos de vida e aos sistemas de produção que sustentam a alimentação.

A culinária foi, assim, o ponto de partida para abordar temas que ultrapassam o preparo e o consumo dos alimentos. Ingredientes, receitas e formas de preparar e compartilhar uma refeição carregam memórias, identidades, territórios, histórias familiares e modos de produzir e viver.

Ao cozinhar juntos, os participantes puderam não apenas conhecer diferentes preparações, mas também conversar sobre as histórias e experiências associadas a elas. A alimentação tornou-se, assim, uma forma de aproximar pessoas e culturas.

A realização da oficina também contou com a colaboração do grupo de agricultores agroecológicos Flor do Fruto, de Biguaçu (SC), responsável pela feira semanal realizada no CCA/UFSC. O grupo realizou a doação de alimentos diversificados utilizados na preparação dos dois pratos da oficina, contribuindo diretamente para a realização da atividade e para a valorização da produção agroecológica e da agricultura familiar. O Projeto Ubuntu e o LERU registram seu agradecimento aos agricultores, na pessoa do agricultor e agrônomo Anderson Luís Romão, “grande parceiro de nossos projetos”. Essa colaboração reforça a importância de aproximar a universidade dos agricultores e de reconhecer que as experiências alimentares também envolvem relações de cooperação, produção e compartilhamento. Da mesma maneira, registramos agradecimento a cineasta Iara Lee e a Cultures of Resistance Network Foundation pela doação dos demais ingredientes que compuseram as receitas.

A programação também buscou destacar a diversidade do continente africano. África reúne diferentes povos, países, línguas, histórias, territórios, ingredientes, técnicas culinárias e tradições. Por isso, conhecer uma preparação específica é apenas uma porta de entrada para essa diversidade.

A oficina concentrou-se especialmente nas referências culturais da Guiné-Bissau, com a participação de estudantes das etnias Fula e Pepel, e estabeleceu também um diálogo com a cultura e a história do Haiti por meio de sua culinária.

 O Sigá pelas mãos das etnias Fula e Pepel

Um dos destaques da atividade foi a preparação do Sigá, prato da tradição culinária da Guiné-Bissau, compartilhado pelos estudantes a partir de suas referências e experiências culturais. A preparação permitiu conhecer ingredientes, técnicas e formas de compartilhar o alimento, ao mesmo tempo em que abriu espaço para conversar sobre identidade, pertencimento e transmissão de conhecimentos entre gerações. Para os estudantes guineenses, cozinhar e compartilhar o Sigá justamente na semana de comemoração da independência conferiu à atividade um significado particular: a cozinha tornou-se também espaço de celebração, memória e afirmação cultural. As/os oficineiras/os do Sigá foram os guineenses: Valdinora Alfredo Co, Diana Carlitos Da Silva, Camenamul Upá Nambeué e Antchu Atenca Có, e estudantes de graduação em Agronomia.

 A Soup Joumou e a independência do Haiti

A programação também trouxe a Soup Joumou, preparação tradicional haitiana associada à história da independência do país. A sopa é tradicionalmente preparada e consumida no dia 1º de janeiro, data em que o Haiti celebra sua independência. Sua história está ligada ao processo de emancipação haitiano e à transformação de uma preparação que era associada às elites coloniais em um importante símbolo da identidade nacional e da liberdade. A Soup Joumou foi inscrita, em 2021, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, que reconhece também sua dimensão comunitária e seu papel na transmissão de valores culturais e no fortalecimento dos vínculos sociais. Ao reunir estudantes africanos dos quatro cursos de graduação do CCA, bem como estudantes dos cursos de Enfermagem e Medicina da UFSC, professores, representantes da direção do CCA e membros da comunidade externa, a oficina transformou a cozinha em um espaço de diálogo intercultural e construção de relações. As oficineiras da Soup Joumou foram as haitianas: Thamara Colin, estudante de graduação em Agronomia, Ruth-Valine Etienne, médica e estudante de doutorado em Saúde Coletiva, e Nathanaelle Jean Baptiste, enfermeira e estudante de doutorado em Saúde Coletiva.

A atividade contou também com representantes dos centros acadêmicos, do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (LACAF), do Laboratório de Educação do Campo e Estudos da Reforma Agrária (LECERA), do Laboratório de Estudos Rurais (LERU), do Laboratório de Estudos da Multifuncionalidade Agrícola e Território (LEMATE) e da Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB), além de representantes da Escola Municipal do Rio Vermelho. Lideranças do Quilombo Vidal Martins também haviam confirmado presença. Integrantes do quilombo participam do Projeto Ubuntu, ampliando o alcance comunitário da iniciativa e fortalecendo as possibilidades de diálogo entre a universidade e as comunidades tradicionais.

A proposta foi experimentar, cozinhar, conversar, perguntar, contar histórias, lembrar de casa e conhecer outras experiências culturais.

Para o LERU, a atividade reforça a importância de criar espaços em que diferentes sujeitos possam compartilhar seus conhecimentos, culturas, identidades e histórias no cotidiano da universidade. O Projeto Ubuntu materializa essa perspectiva ao transformar a diversidade cultural presente na UFSC em oportunidade de aprendizagem e convivência, articulando também o reconhecimento dos saberes dos estudantes, a valorização dos agricultores e a aproximação com a comunidade externa.

Como sintetiza o próprio princípio que inspira o projeto, “eu sou porque nós somos”.

     

Tags: ÁfricaAgricultura familiarAncestralidadeInternacionalização

Projeto UBUNTU é sediado no LERU

05/05/2026 00:53

O Laboratório de Estudos Rurais (LERU/UFSC) sedia o Projeto de Extensão UBUNTU: Africanidades, Identidades, Costumes, Culturas e Práticas Alimentares, uma iniciativa dos estudantes africanos no CCA/UFSC, que articula ensino, pesquisa e extensão em torno da valorização de saberes afro-diaspóricos, da interculturalidade e da promoção de práticas educativas antirracistas. O projeto está registrado no SIGPEX sob o nº 202516049. Inspirado no princípio “Sou quem sou porque somos todos nós”, o UBUNTU propõe um conjunto amplo de atividades que buscam fortalecer o diálogo entre conhecimentos científicos e saberes tradicionais, com ênfase em experiências comunitárias, práticas alimentares e expressões culturais.

A programação contempla: Exibição CineÁfrica e exposições artísticas; Oficina de culinária africana; Oficinas de danças e de tranças; Realização do II Seminário Internacional de Agriculturas, com participação de representantes de Angola, Guiné-Bissau, Gabão, Moçambique e Haiti; Atividades de educação antirracista em escolas municipais; Participação em eventos institucionais como a SEPEX e a Feira Orgânica do CCA; Mutirões de cuidado com viveiro e horta no Quilombo Vidal Martins.

O projeto terá vigência de 11 de outubro de 2025 a 31 de dezembro de 2026, consolidando-se como um espaço de construção coletiva de conhecimento e de fortalecimento de redes entre universidade e comunidades.

A apresentação oficial do projeto ocorrerá no dia 11 de maio de 2026, às 12h30, no Auditório do CCA. A atividade é aberta a todos/as interessados em conhecer e participar das ações propostas. Até a data da apresentação, os estudantes que conduzem o Projeto estão convidando a comunidade do CCA, via distribuição de convites: Convite mobilização

Com essa iniciativa, o LERU reafirma seu compromisso com a promoção da diversidade, da justiça social e da integração entre diferentes formas de produzir conhecimento.

🔗 Mais informações: https://www.instagram.com/ubuntucca.ufsc?igsh=MTVzeHh0b3ozZDY0cg==

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